Cinco e meia da manhã. Estou totalmente indignada. Três casacos de lã, um par de luvas pretas e uma touca - ridícula, por sinal - não são suficientes para bloquear esse frio terrível. Tanto faz, já estou quase embarcando mesmo.
Ah, está vendo? Aí está outra coisa que me deixa indignada. Por que dizemos coisas que não tem sentido? Afinal, quando digo que estou “embarcando”, supõe-se que seja em um barco, como o nome diz. Mas é um trem! Logo, eu estaria “emtremcando”. Mas isso não está no dicionário, e qualquer professora de gramática que se preze me daria um grande zero. Outra coisa que me deixa aborrecida: quando acertava as questões da prova, era um “C” de menos de dois centímetros. Agora, quando errava, era um “X” desse tamanhão. Esquece, preciso parar de falar de mim.
Um, dois, três, quatro. Quatro degraus para entrar no trem. Ele está vazio. Quem, além dessa maluca aqui, aceitaria viajar às cinco e meia da manhã em pleno inverno? Ah, há um homem naquele assento. Talvez eu devesse sentar ao lado dele. Quem sabe ele não me distrai um pouco?
Vejamos... o que se faz quando se fala com uma pessoa desconhecida? Que tal “oi, tudo bem? Estou ótima também”? Não. É clichê demais, é mentiroso, hipócrita e o pior: rima. Vou começar por um “bom dia”. É isso é bom.
- Bom dia.
- Como vai? - ele pergunta. Maldito!
- Estou ótima, e o senhor? - é incrível como sempre mentimos nessa parte. Nunca pude dizer com razão que estou ótima. Mas é o que manda as regras de educação.
- Muito bem. Deixe-me me apresentar. - olha só, ele até carrega no pleonasmo. É essa a palavra, não é? Pleonasmo. - Me chamo Feliciano.
- Meu nome é Alice. - Tive que segurar o riso. Por que Feliciano? Esse nome me lembra um antigo desenho, desses de gato e rato, onde o gato levava a pior. O nome do gato era Feliciano. De qualquer forma, Alice também lembra um desenho.
Pausa dramática. Realmente, odeio essas pausas. Mas ele acaba interrompendo:
- Deixe-me contar uma história - ufa, sem pleonasmo dessa vez. - certa vez, tive uma garota parecida com você. Bem, seria mais correto dizer que ela me teve - ele riu, e eu respondi com um sorriso amarelo. Não achei graça, ué. - Ela era adorável, e me levou para conhecer a casa dela. Uma casa estupenda, com todo luxo que o dinheiro pode comprar. Todinha de mogno, da melhor qualidade. Uma beleza. Chegando na sala, ela me falou dos problemas da vida. Como ela reclamava, meu Deus! Mas era linda, tinha uma voz doce, era simplesmente perfeita, como um pássaro. No final, ela me encheu de vinho, e eu adormeci no tapete. Quando acordei, estava sozinho. O pássaro havia voado. Mas nunca me esqueci do rosto dela.
Tenho que admitir, foi uma boa história. Preciso contratar esse cara, talvez cure minha insônia. Bem, o trem chegou à minha estação. Hora de voltar pra casa. É uma bela casa, com todo o luxo que o dinheiro de minha mãe pôde comprar. Todinha de mogno, da melhor qualidade. Uma beleza.
Nenhum comentário:
Postar um comentário